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A preto e branco

por Regina da Cruz, em 06.10.13

Ultimamente sinto uma preferência por cinema a preto e branco. Talvez não seja exactamente pelas cores "preto" e "branco" (e todos os tons de cinza que ligam uma ponta à outra) não, não é uma preferência estética pelo preto e pelo branco, embora também aprecie; penso que aquilo que me faz querer ver filmes com estas tonalidades deve-se, isso sim, ao estilo que vigorava na época. Nesses tempos idos em que a tecnologia apenas permitia a dicromia muda, havia um imenso cuidado com o conteúdo. Há nessas películas e diaporamas, quase invariavelmente, uma robustez do argumento como já é muito raro ver-se nos dias de hoje. Talvez por que os meios fossem demasiado caros os realizadores não se davam ao luxo de gravar lixo. Ou talvez fosse apenas outra a educação, outros tempos.

Quando, por exemplo, me debruço sobre um filme gravado no início do sec. XX aquilo que impressiona é a vontade que o realizador tem de contar uma história, uma necessidade tão premente que ultrapassa todas as limitações técnicas. É bem sabido que a necessidade aguça o engenho e no caso desse cinema primeiro, eu diria que o aguça de forma magistral. Principiar a ver um filme de algumas horas, mudo, cinzento, por vezes com manchas e cortes, e constatar aos poucos como o interesse pela trama cresce em nós ao ponto de não querermos, não conseguirmos, parar de ver, é fascinante! Revela como uma boa história aliada a uma cuidada forma de a contar, nos pode cativar, despertar e impressionar de tal modo que quando o filme termina sentimo-nos a levitar, uma vezes emocionados, embriagados de contentamento ou surpresa, ou ficamos pensativos, fazemos reflexões, vamos nos carro a conduzir e a falar sozinhos ou melhor, para nós e para o ar, ou então, para não falarmos só para nós e para o ar, ligamos àqueles amigos cinéfilos, ou simplesmente bons amigos, a perguntar se já viram o tal filme, que é maravilhoso - e se não viste, tens de ver! -, um tesouro que queremos partilhar, que queremos descobrir com alguém. Creio ser esta a verdadeira essência do grande cinema.

E algo muito curioso acontece quando começamos a apreciar e a conhecer esses tempos iniciais do cinema, com as suas histórias riquíssimas, os elencos elegantes, formas de falar límpidas, planos intensos que transmitem emoções ao espectador, em suma, quando nos habituamos a ver mestria e arte através de imagens em movimento, tornámo-nos nós mesmos, hoje, melhores observadores daquilo que nos rodeia, mais atentos ao detalhe e mais sensíveis. Curioso como o cinema dos nossos dias parece um parente tão distante desse cinema inicial, cheio de alma e de substância, cheio de intenção e de cuidado, de pormenor. É pop e descartável, é barato sendo milionário, é light e cheio de efeitos especiais disparatados.

Não se perde nada em não ver a maioria dos filmes que hoje passam nas salas. São filmes que já nascem mortos, todos iguais uns aos outros - salvo honrosas excepções, por que sempre existe uma excepção, um relizador que tem consciência estética, há sempre algum. Ou talvez seja só eu que estou a exagerar. Duke Ellington dizia, a propósito da música ser boa ou má, que "If it sounds good, it IS good." Talvez com o cinema se passe o mesmo. Quem sabe o que o tempo fará destes filmes? Talvez daqui a 50 anos alguém se emocione com um filme de boys band ou com aqueles de quarentonas adolescentes que falam de sexo. Quem sabe?

Entretanto pasmo ao descobrir esses tesouros com gente dentro, gente dramática, com emoções, com inflexões de voz e intensidade no olhar capazes de causar impacto e nos despertar para a humanidade que somos.

                                                       (imagem do filme Metropolis, Fritz Lang, 1927)


                                                              (imagem do filme 12 Angry Men, Reginald Rose, 1957)


                                                    (imagem do filme It´s a wonderful life, Frank Capra, 1946)

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