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Portugal não deu ao mundo um matemático

por Regina da Cruz, em 19.10.13

Da mesma forma que não deu um grande astrónomo, ou um físico. A matemática é a música do universo e para a descobrir e entender é preciso método e disciplina. Infelizmente os números e a observação metódica da natureza, a inquisição e compreensão do funcionamento do universo nunca foi alvo do apetite dos portugueses. É que, quem principia à descoberta das leis sublimes que os números escondem e que os governam, quem parte à descoberta da harmonia invisível do universo encontra mil fascínios e, em compensação, mil trabalhos. Fica-se absorvido pois se há coisa que o cérebro aprecia é desvendar enigmas, desocultar segredos. Com cada descoberta, novas leis e com novas leis, novas dúvidas e novas hipóteses - novas demandas.

A matemática é um trabalho com regras e que nunca acaba, e ambas essas características desanimam e afastam os portugueses. Se há coisa à qual os portugueses são aversos é às regras: não as entendem e sempre tentam mudá-las. Mas a matemática não se verga a apetites, existe para ser descoberta e entendida, para ser apreciada no seu mistério e não para ser ajeitada à vontade preguiçosa de gente menos dotada de capacidade analítica. E assim foi este povo repelido tendo encontrado conforto e aprovação nos braços da poesia. A poesia, essa musa volátil e inconsequente, cheia de beleza sensual e exuberante, por oposição à beleza sóbria da matemática, e que beija longamente os lábios e cobre de carícias os diletantes e ociosos.

 


Talvez não seja defeito mas sim, estou em crer, feitio - e um feitio não se muda. Terá coisas boas e coisas más. As coisas más estão bem à vista, sabemos que a poesia e o diletantismo, o não produzir intelectualmente um saber prático, comerciável, transaccionável, nos condena à pobreza material e ela aí está, muito visível. A incapacidade para a matemática resulta da falta de domínio da lógica e da organização, de resto duas características muito nossas. Não creio que algo tão genético seja mutável - senão por um acaso.

 

As coisas boas, de ser-se assim tão inapto para a perseguição da ordem e do rigor, são a calma e o pacifismo - duas características que em momentos se somam e resultam em passividade. Os portugueses não são dados a rupturas senão quando muito pressionados. E mesmo assim, essas mudanças são muitas vezes aparentes - na verdade este povo prefere a permanência; nada agrada mais aos portugueses do que deixar tudo como está.

Por que a poesia é assim, é um fazer-não-fazendo, é uma contemplação, self-indulgence. E se o sol brilha lá fora e se o mar está ali tão perto e se eu, povo sem pressa nem ambição, cujo único saber que sou obrigado a dominar é o da vinha e da comida, para quê perseguir essas quimeras da inteligência?

 

Os portugueses são uma gente que não está adaptada a este mundo. Arranje-se outro, pois um povo não muda.

 

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