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Banalidades

por Regina da Cruz, em 27.09.15

Às vezes digo banalidades e isso entristece-me. Quem me dera ser sempre sensata e só dizer coisas sábias e justas e belas. As banalidades lembram-me da insignificância e pequenez da minha existência. Mas como não dizer banalidades, aqui e acolá, se o mundo está cheio de oportunidades para isso? Como não dizê-las se elas são tão fáceis, tão sugestivas, tão desejadas enfim, tão sociais?

 

Dir-me-ão que é uma questão de prática, de treino, de hábito e eu concordo que sim. Mas como se adquire o hábito da conversa aprofundada, da dialética profícua, se são tão escassas as pessoas que buscam a saudável contemplação das ideias sem encarar os argumentos como uma ofensa pessoal? E o hábito da frugalidade da palavra, do respeito pelo silêncio, como se pratica estas virtudes tendo de se viver num mundo onde só se sobrevive socialmente se se for um papagaio e não se pode ser um papagaio qualquer, há que ser um papagaio optimista!

 

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O fim é o princípio é o fim

por Regina da Cruz, em 26.09.15

Símbolo: Ouroboros

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Carta à minha mãe

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Querida mãe,

 

Escrevo esta carta na internet por falta de coragem de a escrever em papel e ta enviar por correio. Espero que um dia a possas ler, por acaso. Quero que fique escrito em algum lugar o quanto gosto de ti. Apesar de tudo o que sentimos mas não dizemos, fica aqui registado que tenho a noção que não sou uma filha perfeita, que não sou adorável, que não sou dócil; sei que sou esquisita, fugidia e fugitiva, por vezes omissa, distante, desprendida, desconsiderada, ingrata, silente. Mas amo-te, apesar de todos os meus defeitos e para o devido efeito, dos teus. Quero dizer-te que me tenho esforçado, ainda que possas considerar pouco, por não me meter em sarilhos, em apuros, em situações complicadas e embaraçosas daquelas que pudessem trazer vergonha sobre a nossa família, e sempre fui boa aluna e agora, boa trabalhadora. O ser boa aluna era mais para me agradar a mim do que a ti e evitar problemas maiores para o meu lado. O ser boa trabalhadora é para não teres de me sustentar e eu poder ter uma vida autónoma e com o menor número de privações possível. Tive privações que chegassem na juventude e por isso me esforço tanto para não voltar a vivê-las. Ainda assim, sei que ser boa aluna era algo que te dava tranquilidade e por isso aguentei a pressão. Aguentei tanto que quase entrei em esgotamento nervoso no final do 12º ano. Lembras-te de como fiquei de rastos? Era uma mistura de fraqueza física (aqueles 1.70 m de 49 kilos...) com psicológica. Deves lembrar-te que eu estive mal mas nunca saberás o imenso sofrimento que carreguei dentro de mim; nunca saberás e a culpa não é tua, é minha, que guardei tudo dentro de mim e nunca realmente partilhei o que sentia. Pois bem, agora que já passaram muitos anos, digo-te, ainda que por escrito e indirectamente, custou muito, chorei muito. Precisei de mimos, de abraços e beijos teus e nunca os tive. Nunca conversamos de mãe para filha, ou melhor, conversamos uma vez, que me eu lembre, de forma significativa, quando, já no último ano da faculdade, eu me apaixonei e sofri um tremendo desamor. Aí conversamos, ou pelo menos, eu falei qualquer coisa de profundo, porque a paixão e a tristeza transbordavam no meu peito e incontrolavelmente saíam-me pelos em forma de lágrimas e pela boca em forma de palavras avulsas. Tive de contar como forma de me manter à superfície e como forma de perceberes por que motivo eu estava tão pouco contente em regressar a casa após três meses a viver fora do país, numa ausência quase completa. Acho que contei a toda a gente, era como uma terapia. Só o pai foi poupado por razões óbvias. Ou talvez lhe tenhas contado, mas acho que não, não é assunto que te sentisses à vontade para contar, daquilo que te conheço. De resto, sabes muito pouco sobre mim e eu nem sei bem o quanto realmente sabes nem tão pouco se estás interessada em saber mais. Era suposto eu ser fonte de grande interesse da tua parte pois daquilo que observo com outras mães, parece ser assim. Será que sabes mais acerca de mim do que eu possa supor? Que sabes tu de mim, mãe? E que sei eu de ti? Pouco, receio que muito pouco.

 

Mesmo rodeada de pessoas, cresci e tenho vivido sozinha. Claro que sempre estiveste presente e zelaste pelo meu bem estar, mesmo quando estavas doente, nunca me faltou uma única refeição. Por vezes discutíamos amargamente e tu recorrias a insultos temíveis que ainda hoje me magoam em lembrança. A adolescência foi um período que me marcou pela negativa, recordo poucas coisas boas dessa época a não ser talvez que tinha um cabelo muito bonito e um gosto especial por música. De resto, ficou uma imensa amargura e solidão - chorei muito, ri pouco. Nada me dizia coisa alguma. Sentia-me deslocada, desadequada, violenta. Mas lá fui aguentando até que entrei na faculdade e viajei para longe de casa; o primeiro dia, ou melhor, o momento da despedida custou um bocado pois vi-te chorar e ao pai por me deixarem em cidade desconhecida mas confesso que no dia seguinte eu estava muito bem. Não me custou sair de casa, antes pelo contrário, desejava fazê-lo e esforcei-me para que acontecesse. Sempre fui tremendamente independente e orgulhosa. A faculdade passou rápido e mais uma vez tive sempre o vosso apoio possível. Sempre me apoiaste e novamente a minha maior prioridade era não reprovar sob pena de isso te entristecer ou trazer preocupação. Tenho poucas fotos desse tempo como aliás tenho poucas fotos de quase tudo o que vivi. Mesmo quando fiz Erasmus tirei ou deixei que me tirassem pouquíssimas fotos. Quase não há registos que não sejam os que estão guardados na minha cabeça. Sempre tudo guardado dentro de mim. É por isso que eu sei que sou difícil, eu escondo, eu guardo pois não acho que tenha interesse para ninguém aquilo que eu sinto ou aquilo que eu vivo. Mas isso está errado, eu sei que provavelmente adorarias saber mais coisas sobre mim mas se não vieres saber, se não vieres perguntar, eu não digo e como não vens saber e não vens perguntar, não sabes. Somos duas mulheres que cresceram ligadas por um sentido ambíguo de tolerância e de conflito. Somos próximas e distantes ao mesmo tempo. Somos confidentes quando calha, de modo inconsistente. Como é que é suposto ser a relação de uma mãe com uma filha?

 

Queria fazer-te sorrir ou mesmo rir à gargalhada mas não consigo. A minha forma de fazer-te feliz é outra, é imperfeita, é poucochinha. Desculpa a minha arrogância mãe, eu devia ser diferente, talvez mais humilde, mais carinhosa, mais simples, mais calorosa mas eu não sei ser assim. Sou um desastre e peço-te desculpa por te fazer sofrer. Tu também me fazes sofrer com essa tua incapacidade de me abraçares e me perguntares como é que eu estou. Não sabes que me provocas tristeza porque eu não te digo, eu nunca digo. Por isso mãe esta carta que te escrevo é uma tentativa de que saibas que gosto muito de ti e que só desejava que pudéssemos recomeçar uma vida nova, fazendo as pazes com o passado, aceitando as imperfeições de ambas, dando-nos a conhecer na nossa vulnerabilidade e partilhando o sentimento de amor e de verdade. Não é que não tenha sido assim até hoje mas era tão especial se pudésse ser, a partir de agora, consciente. Desculpa a minha falta de coragem. Tenho medo que aches que estou a ser uma tonta e ridícula ao escrever estas coisas mas é o que eu sei escrever para dizer o que sinto, que é imenso e difícil de descrever. Não me leves a mal mãe, abraça-me só, diz que gostas muito de mim e que me perdoas todas as minhas ausências, diz, se for verdade, que eu te fiz feliz muitas vezes - diz isso, diz isso e alivia o meu sofrimento. Diz só isso e eu mudo, eu mudo tudo, prometo.

 

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