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A infinitude de mim dentro de quatro paredes.

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Que força centrípeta é esta que me faz querer ficar dentro de casa e mais ainda, dentro de mim e dentro do tempo e do espaço, na penumbra silente, como uma matrioska que nunca se desfolha nas suas camadas de mistério?

 

Que força grave é esta, que desígnio? O tempo nunca é suficiente para satisfazer plenamente a sede de mim.

Mas que faço eu com este excesso de interioridade, ou como o contrario, se é que o posso ou devo contrariar?

 

O vizinho liga o aspirador e isso irrita-me. Há uma cão que ladra sem motivo aparente e isso perturba-me. Há um bebé que irrompe a chorar e isso causa-me desconforto, quero que o calem logo. A algazarra caótica dos miúdos à beira da piscina, acho-a insuportável. Gritos, guinchos e correrias desenfreadas? Desejo o silêncio e a calma.

 

Há dias senti muito alívio ao saber que Proust também era assim, também sofria deste mal. Mas Proust atenuou este mal colocando-o ao serviço da arte, e por isso obteve perdão, enquanto eu, na minha mediocridade e ociosidade, nada tenho para mostrar. Em mim o mal é inteiro e estéril, sem atenuantes, sem alquimia ou metamorfose ou possibilidade de redenção.

 

Por que nasci tão deslocada da extroversão, tão avessa ao exterior?

 

Sinto simultaneamente preocupação e orgulho por ser assim tão singular. E é esta dualidade que me divide e me impede de perceber num pensamento unificado, claro e de fronteiras definidas, aquilo que eu sou. Não consigo distinguir e apartar a virtude do vício para assim poder abraçar a primeira e descartar a segunda, com vigor. Não consigo distinguir nem sei o que é certo; só sei que sou. Sou aparentemente alegria e tristeza, inspiração e desolação, beleza e fealdade, bem e mal ao mesmo tempo e de forma indivisível.

 

O que é que isto interessa? Por que penso nisto, por que escrevo isto? É o excesso de mim, o excesso de tempo que nunca é suficiente, este ócio transbordante que me inebria e o prazer de o preencher com as habilidades da mente.

 

Está sol, um dia belíssimo de verão, quase outono. Há mar, um mar azul e ondulante e areia fresca, a meia dúzia de quilómetros e eu aqui, a escrever, a tentar dissipar, pelos prazeres do intelecto, uma melancolia que facilmente se dissiparia pelo simples contacto com a natureza ou com a contemplação de uma bela paisagem luminosa de azul infinito...

 

Será que dissipava? Será que atenuava esta densidade que trago comigo, que carrego penosamente todos os dias, todas as horas?

 

Mas a verdade é que não me apetece dissipá-la, e esse é o problema. Apetece-me mantê-la, cultivá-la, preservá-la, alimentá-la, senti-la, observá-la e compreendê-la, na medida do possível, que é sempre impossível dada a forma abstracta e tão entranhada em mim como se apresenta. Alimento-a e faço-a crescer porque gosto dela e só espero um dia vir a constatar, com uma alegria e paz imensas, que afinal sempre se tratou de uma amiga, uma companheira silenciosa, excessivamente curiosa e sempre fiel, pouco dada à interacção mundana, que me subtraiu ao mundo social por motivos insondáveis mas superiores e valorosos para mim e que mais tarde, entenderei e agradecerei. Tenho esperança que assim se venha a revelar.

 

Espero não vir, de modo contrário, a constatar com horror que a cada dia que passei ausente da interacção com o mundo, estava na verdade em estado de sequestro, de refém, e que ela, alimentando-me com o pão que o diabo amassou, me sufocou lentamente com as suas mãos brancas de nunca terem visto o sol, a ponto de me fazer dissolver na infinitude do tempo, aniquilando-me de forma suave mas definitiva, não restando de mim mais nada, nem sequer uma breve memória ou impressão na alma ou na vida dos que ficam depois de mim.

 

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