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Carta à minha mãe

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Querida mãe,

 

Escrevo esta carta na internet por falta de coragem de a escrever em papel e ta enviar por correio. Espero que um dia a possas ler, por acaso. Quero que fique escrito em algum lugar o quanto gosto de ti. Apesar de tudo o que sentimos mas não dizemos, fica aqui registado que tenho a noção que não sou uma filha perfeita, que não sou adorável, que não sou dócil; sei que sou esquisita, fugidia e fugitiva, por vezes omissa, distante, desprendida, desconsiderada, ingrata, silente. Mas amo-te, apesar de todos os meus defeitos e para o devido efeito, dos teus. Quero dizer-te que me tenho esforçado, ainda que possas considerar pouco, por não me meter em sarilhos, em apuros, em situações complicadas e embaraçosas daquelas que pudessem trazer vergonha sobre a nossa família, e sempre fui boa aluna e agora, boa trabalhadora. O ser boa aluna era mais para me agradar a mim do que a ti e evitar problemas maiores para o meu lado. O ser boa trabalhadora é para não teres de me sustentar e eu poder ter uma vida autónoma e com o menor número de privações possível. Tive privações que chegassem na juventude e por isso me esforço tanto para não voltar a vivê-las. Ainda assim, sei que ser boa aluna era algo que te dava tranquilidade e por isso aguentei a pressão. Aguentei tanto que quase entrei em esgotamento nervoso no final do 12º ano. Lembras-te de como fiquei de rastos? Era uma mistura de fraqueza física (aqueles 1.70 m de 49 kilos...) com psicológica. Deves lembrar-te que eu estive mal mas nunca saberás o imenso sofrimento que carreguei dentro de mim; nunca saberás e a culpa não é tua, é minha, que guardei tudo dentro de mim e nunca realmente partilhei o que sentia. Pois bem, agora que já passaram muitos anos, digo-te, ainda que por escrito e indirectamente, custou muito, chorei muito. Precisei de mimos, de abraços e beijos teus e nunca os tive. Nunca conversamos de mãe para filha, ou melhor, conversamos uma vez, que me eu lembre, de forma significativa, quando, já no último ano da faculdade, eu me apaixonei e sofri um tremendo desamor. Aí conversamos, ou pelo menos, eu falei qualquer coisa de profundo, porque a paixão e a tristeza transbordavam no meu peito e incontrolavelmente saíam-me pelos em forma de lágrimas e pela boca em forma de palavras avulsas. Tive de contar como forma de me manter à superfície e como forma de perceberes por que motivo eu estava tão pouco contente em regressar a casa após três meses a viver fora do país, numa ausência quase completa. Acho que contei a toda a gente, era como uma terapia. Só o pai foi poupado por razões óbvias. Ou talvez lhe tenhas contado, mas acho que não, não é assunto que te sentisses à vontade para contar, daquilo que te conheço. De resto, sabes muito pouco sobre mim e eu nem sei bem o quanto realmente sabes nem tão pouco se estás interessada em saber mais. Era suposto eu ser fonte de grande interesse da tua parte pois daquilo que observo com outras mães, parece ser assim. Será que sabes mais acerca de mim do que eu possa supor? Que sabes tu de mim, mãe? E que sei eu de ti? Pouco, receio que muito pouco.

 

Mesmo rodeada de pessoas, cresci e tenho vivido sozinha. Claro que sempre estiveste presente e zelaste pelo meu bem estar, mesmo quando estavas doente, nunca me faltou uma única refeição. Por vezes discutíamos amargamente e tu recorrias a insultos temíveis que ainda hoje me magoam em lembrança. A adolescência foi um período que me marcou pela negativa, recordo poucas coisas boas dessa época a não ser talvez que tinha um cabelo muito bonito e um gosto especial por música. De resto, ficou uma imensa amargura e solidão - chorei muito, ri pouco. Nada me dizia coisa alguma. Sentia-me deslocada, desadequada, violenta. Mas lá fui aguentando até que entrei na faculdade e viajei para longe de casa; o primeiro dia, ou melhor, o momento da despedida custou um bocado pois vi-te chorar e ao pai por me deixarem em cidade desconhecida mas confesso que no dia seguinte eu estava muito bem. Não me custou sair de casa, antes pelo contrário, desejava fazê-lo e esforcei-me para que acontecesse. Sempre fui tremendamente independente e orgulhosa. A faculdade passou rápido e mais uma vez tive sempre o vosso apoio possível. Sempre me apoiaste e novamente a minha maior prioridade era não reprovar sob pena de isso te entristecer ou trazer preocupação. Tenho poucas fotos desse tempo como aliás tenho poucas fotos de quase tudo o que vivi. Mesmo quando fiz Erasmus tirei ou deixei que me tirassem pouquíssimas fotos. Quase não há registos que não sejam os que estão guardados na minha cabeça. Sempre tudo guardado dentro de mim. É por isso que eu sei que sou difícil, eu escondo, eu guardo pois não acho que tenha interesse para ninguém aquilo que eu sinto ou aquilo que eu vivo. Mas isso está errado, eu sei que provavelmente adorarias saber mais coisas sobre mim mas se não vieres saber, se não vieres perguntar, eu não digo e como não vens saber e não vens perguntar, não sabes. Somos duas mulheres que cresceram ligadas por um sentido ambíguo de tolerância e de conflito. Somos próximas e distantes ao mesmo tempo. Somos confidentes quando calha, de modo inconsistente. Como é que é suposto ser a relação de uma mãe com uma filha?

 

Queria fazer-te sorrir ou mesmo rir à gargalhada mas não consigo. A minha forma de fazer-te feliz é outra, é imperfeita, é poucochinha. Desculpa a minha arrogância mãe, eu devia ser diferente, talvez mais humilde, mais carinhosa, mais simples, mais calorosa mas eu não sei ser assim. Sou um desastre e peço-te desculpa por te fazer sofrer. Tu também me fazes sofrer com essa tua incapacidade de me abraçares e me perguntares como é que eu estou. Não sabes que me provocas tristeza porque eu não te digo, eu nunca digo. Por isso mãe esta carta que te escrevo é uma tentativa de que saibas que gosto muito de ti e que só desejava que pudéssemos recomeçar uma vida nova, fazendo as pazes com o passado, aceitando as imperfeições de ambas, dando-nos a conhecer na nossa vulnerabilidade e partilhando o sentimento de amor e de verdade. Não é que não tenha sido assim até hoje mas era tão especial se pudésse ser, a partir de agora, consciente. Desculpa a minha falta de coragem. Tenho medo que aches que estou a ser uma tonta e ridícula ao escrever estas coisas mas é o que eu sei escrever para dizer o que sinto, que é imenso e difícil de descrever. Não me leves a mal mãe, abraça-me só, diz que gostas muito de mim e que me perdoas todas as minhas ausências, diz, se for verdade, que eu te fiz feliz muitas vezes - diz isso, diz isso e alivia o meu sofrimento. Diz só isso e eu mudo, eu mudo tudo, prometo.

 

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Ainda bem que assim é.

por Regina da Cruz, em 05.08.15

Que não houve exaltação ou entusiasmo. Que não houve excitação para além daquela inicial e primitiva, característica da novidade, mas que facilmente se esgota se não for alimentada com aqueles rituais que são próprios. Que não perseguimos desmesuradamente o convívio entre ambos, nem o forçamos, que não nutrimos ilusões, que não demos azo a que nos conhecessemos com alguma profundidade e eventualmente, deus nos livre de semelhante coisa, nos apaixonássemos.

 

Na verdade, nem sequer demos azo a que isso alguma vez se tornasse numa possibilidade. Sim, por ter imperado a prudência, ou lá o que foi, nem possibilidade chegou a ser. Foi ainda menos que um nado morto, foi um não-nado.

 

Mantivemos uma espécie de política de não destruição mútua pois ambos sabemos das nossas forças nucleares e estamos conscientes da nossa capacidade destrutiva e por isso mantivemos uma distância sabiamente segura como é próprio de gente como nós, muito telúricos, muito conscientes, muito cerebrais. Que crescidinhos que somos, que orgulho das mamãs!

 

Não, não somos inseguros, nem apáticos, nem tão pouco aborrecidos, sem aventurança  nem criatividade. Calculistas talvez, medrosos nunca! Medo de quê, hein? De que nos pudessemos apaixonar e vir a descobrir uma dimensão sublime e bela, outra que não este tugurio existencial em que temos os pés bem assentes? Medo disso, de que deixemos de ter os pés assentes na terra e a cabeça a pairar no éden? Ou medo de nos desiludirmos irremediavelmente, com dor dilacerante, ao constatar mais uma vez que a realidade, ou um qualquer acesso agudo de consciência, tornou impossível continuar a ilusão que construimos um do outro?

 

Ou por deixarmos de conseguir aguentar a mentira que fizemos um do outro? Ou por medo de não conseguirmos anular o que somos, ou sonhámos ser, em prol da convivência social, do nós, engolindo o dia-a-dia de tédio, de frustração, com sacrífico, como preço a pagar pela companhia, pelo projecto ou pela família, em troca de algum sentido na vida ou pela esperança de redenção, de uma satisfação humilde e quiçá, lá bem às portas do fim, ser recompensado com mimos na cara enrugada, amparo e finalmente imortalidade? Medo disso ou de que tu ao me quereres conhecer, ou eu ao querer conhecer-te a ti, possa deitar por terra a muralha que construiste e todo o edíficio que és, esplêndido, articulado, lógico e complexo fique nu e exposto, afinal tão frágil, à minha frente e à minha mercê? Suspeito que, se conseguisse resistir à tentação de me apoderar de ti, por certo me enamoraria dessa tua coragem e vulnerabilidade, da forma mais pura e benevolente.

 

Temos medo disto tudo, é possível. Receamos talvez a distância, o afastamento, a indiferença amarga, a falta de desejo, o nojo, o nojo do beijo, a rejeição do toque, a rejeição do olhar,  aquele olhar que outrora foi de estrelas faíscantes e de promessas límpidas de sensualidade lânguida, mas que agora é só um deserto de fel e quando não, pior ainda, de indiferença. A ser assim, talvez faça sentido ter medo e se justifique a tal prudência. Ou será porque trazemos uma bagagem enorme cheia de expectativas e sonhos que nos recusamos a largar e fazemo-nos ao caminho, à viagem, embriagados de ego e de ilusão?

 

A verdade é que enquanto receamos não vivemos. Há recompensas valiosas para quem vence o medo e se faz ao caminho sem mala nem mapa.

 

Mas nós não, nós contentamo-nos com pouco - ou assim nos convencemos.

 

Ainda bem que assim é, que somos prudentes, para quê arriscar tudo isto, que não é pouco? Como aguentar o declínio, a angústia, as lágrimas, o fim, que nunca o é realmente, pois há sempre um pedaço do outro que ficará em nós, debaixo da nossa pele, sob a forma de uma memória ténue mas indelével, por vezes purificada de perfeição e de saudade, outras de náusea, mas sempre pronta a ser reavivada pelos estímulos mais improváveis. Para quê sulcar mente e alma com as inquietações da paixão, para quê?! Não faz sentido. Vivamos cerebral e racionalmente neste afastamento seguro e com o mínimo de sofrimento.

 

Fizemos bem em nunca o ser, em nunca sequer ter tentado.

 

Claro que vivemos abaixo das nossas possibilidades emocionais e talvez com isto tenhamos de conviver com a angústia de nunca conhecer senão o pouco que nos damos ao luxo e à liberdade de conhecer, a medo, pela segurança de não sofrer. A incerteza dói.

 

Há recompensas para os audazes e destemidos. Mas para nós é mais confortável viver com esta paz, este consolo mediano e morno de nem sequer ter tentado, de nem ter ousado tentar. Tudo ficou exactamente como era antes, como se o nosso encontro tivesse sido só mais um acontecimento fortuito, um fruto estéril do acaso. O antes de ti é perfeitamente simétrico e igual ao depois de ti, excepto na minha agenda telefónica. Fizemos bem em não querer exacerbar aquelas noites, procurando perceber se algo mais arrebatador poderia surgir na sequência de tão singular encontro. Permaneçamos tranquilos, quase indiferentes, pois talvez haja realmente alguma sabedoria, ou pelo menos algum proveito, em proceder assim.

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Falta de modos

por Regina da Cruz, em 05.10.13

Há pessoas que simplesmente não devolvem chamadas e não respondem a mensagens. Achamos que são nossos amigos, que são especiais, mas depois fazem-nos isto - pregam-nos uma desfeita. Talvez seja um sinal dos tempos, talvez seja uma tremenda falta de modos e talvez uma coisa e a outra sejam a mesma.

Desculpam-se invariavelmente com a falta de tempo, com um dia difícil, uma semana difícil, um mês difícil e outras coisas que não são verdade, que são só desculpas pois não têm coragem de dizer que não gostam de nós, que não apreciam o nosso contacto, que dispensam a nossa presença, que não querem ser nossos amigos e que desejam ardentemente que os deixemos em paz. Esquecem-se porém, talvez por falta daquela sensibilidade que se adquire com uma boa educação, que ao não dizerem nada estão efectivamente a dizer-nos tudo isto mas adicionado do elemento de desprezo que desfaz a alma. A deles, primeiro que tudo. E depois a nossa, bem devagar.

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