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Ainda bem que assim é.

por Regina da Cruz, em 05.08.15

Que não houve exaltação ou entusiasmo. Que não houve excitação para além daquela inicial e primitiva, característica da novidade, mas que facilmente se esgota se não for alimentada com aqueles rituais que são próprios. Que não perseguimos desmesuradamente o convívio entre ambos, nem o forçamos, que não nutrimos ilusões, que não demos azo a que nos conhecessemos com alguma profundidade e eventualmente, deus nos livre de semelhante coisa, nos apaixonássemos.

 

Na verdade, nem sequer demos azo a que isso alguma vez se tornasse numa possibilidade. Sim, por ter imperado a prudência, ou lá o que foi, nem possibilidade chegou a ser. Foi ainda menos que um nado morto, foi um não-nado.

 

Mantivemos uma espécie de política de não destruição mútua pois ambos sabemos das nossas forças nucleares e estamos conscientes da nossa capacidade destrutiva e por isso mantivemos uma distância sabiamente segura como é próprio de gente como nós, muito telúricos, muito conscientes, muito cerebrais. Que crescidinhos que somos, que orgulho das mamãs!

 

Não, não somos inseguros, nem apáticos, nem tão pouco aborrecidos, sem aventurança  nem criatividade. Calculistas talvez, medrosos nunca! Medo de quê, hein? De que nos pudessemos apaixonar e vir a descobrir uma dimensão sublime e bela, outra que não este tugurio existencial em que temos os pés bem assentes? Medo disso, de que deixemos de ter os pés assentes na terra e a cabeça a pairar no éden? Ou medo de nos desiludirmos irremediavelmente, com dor dilacerante, ao constatar mais uma vez que a realidade, ou um qualquer acesso agudo de consciência, tornou impossível continuar a ilusão que construimos um do outro?

 

Ou por deixarmos de conseguir aguentar a mentira que fizemos um do outro? Ou por medo de não conseguirmos anular o que somos, ou sonhámos ser, em prol da convivência social, do nós, engolindo o dia-a-dia de tédio, de frustração, com sacrífico, como preço a pagar pela companhia, pelo projecto ou pela família, em troca de algum sentido na vida ou pela esperança de redenção, de uma satisfação humilde e quiçá, lá bem às portas do fim, ser recompensado com mimos na cara enrugada, amparo e finalmente imortalidade? Medo disso ou de que tu ao me quereres conhecer, ou eu ao querer conhecer-te a ti, possa deitar por terra a muralha que construiste e todo o edíficio que és, esplêndido, articulado, lógico e complexo fique nu e exposto, afinal tão frágil, à minha frente e à minha mercê? Suspeito que, se conseguisse resistir à tentação de me apoderar de ti, por certo me enamoraria dessa tua coragem e vulnerabilidade, da forma mais pura e benevolente.

 

Temos medo disto tudo, é possível. Receamos talvez a distância, o afastamento, a indiferença amarga, a falta de desejo, o nojo, o nojo do beijo, a rejeição do toque, a rejeição do olhar,  aquele olhar que outrora foi de estrelas faíscantes e de promessas límpidas de sensualidade lânguida, mas que agora é só um deserto de fel e quando não, pior ainda, de indiferença. A ser assim, talvez faça sentido ter medo e se justifique a tal prudência. Ou será porque trazemos uma bagagem enorme cheia de expectativas e sonhos que nos recusamos a largar e fazemo-nos ao caminho, à viagem, embriagados de ego e de ilusão?

 

A verdade é que enquanto receamos não vivemos. Há recompensas valiosas para quem vence o medo e se faz ao caminho sem mala nem mapa.

 

Mas nós não, nós contentamo-nos com pouco - ou assim nos convencemos.

 

Ainda bem que assim é, que somos prudentes, para quê arriscar tudo isto, que não é pouco? Como aguentar o declínio, a angústia, as lágrimas, o fim, que nunca o é realmente, pois há sempre um pedaço do outro que ficará em nós, debaixo da nossa pele, sob a forma de uma memória ténue mas indelével, por vezes purificada de perfeição e de saudade, outras de náusea, mas sempre pronta a ser reavivada pelos estímulos mais improváveis. Para quê sulcar mente e alma com as inquietações da paixão, para quê?! Não faz sentido. Vivamos cerebral e racionalmente neste afastamento seguro e com o mínimo de sofrimento.

 

Fizemos bem em nunca o ser, em nunca sequer ter tentado.

 

Claro que vivemos abaixo das nossas possibilidades emocionais e talvez com isto tenhamos de conviver com a angústia de nunca conhecer senão o pouco que nos damos ao luxo e à liberdade de conhecer, a medo, pela segurança de não sofrer. A incerteza dói.

 

Há recompensas para os audazes e destemidos. Mas para nós é mais confortável viver com esta paz, este consolo mediano e morno de nem sequer ter tentado, de nem ter ousado tentar. Tudo ficou exactamente como era antes, como se o nosso encontro tivesse sido só mais um acontecimento fortuito, um fruto estéril do acaso. O antes de ti é perfeitamente simétrico e igual ao depois de ti, excepto na minha agenda telefónica. Fizemos bem em não querer exacerbar aquelas noites, procurando perceber se algo mais arrebatador poderia surgir na sequência de tão singular encontro. Permaneçamos tranquilos, quase indiferentes, pois talvez haja realmente alguma sabedoria, ou pelo menos algum proveito, em proceder assim.

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Telefonema de um morto

por Regina da Cruz, em 05.08.15

Ontem um morto ligou-me.

Quando vi o nome a piscar no ecrã do telefone nem queria acreditar, senti uma súbita alegria seguida de um bem mais incisivo frio na barriga. Fiquei apreensiva. "Que faço?" Era verdade que tinha algumas saudades e tinha muita curiosidade de saber como seriam os dias lá para os lados da eternidade. "Seria entediante? Teriam relógios? Estaria o morto a repousar numa nuvem do céu, a receber massagens, a ouvir Mozart e a comer lasanha (sem o risco de engordar) ou pelo contrário a suar as estopinhas no inferno, sem desodorizante e a jogar ao burro em pé com o Estaline?

 

O nome continuava a ondular no ecrã como uma bandeira ao vento.


Pensei com gravidade: "E se o morto precisa de alguma coisa, de um agasalho ou de conversar?! Por outro lado, imaginemos que ele foi parar ao inferno, que grande bronca eu agora ficar a saber que afinal era um confirmado traste...Com a natural tendência que tenho para me rir quando menos devo, arriscava-me a ser inconveniente ou a fazer uma piada...seria constrangedor! Não! Não vou atender, até porque a curiosidade matou o gato, o gato! Um bicho com 7 vidas, que fará a mim, que só tenho uma e já vai a meio...Deus sabe o que poderia acontecer se eu atendesse, que dobra no espaço-tempo, que corrupção das leis da física, que caixa de pandora..."

E enquanto esta torrente de dúvidas invadia o meu espírito o nome lá continuava a surgir com uma urgência e vivacidade inusitadas e eu siderada, a olhar incrédula.

 

Por fim calou-se, sumiu do visor. Fez-se um silêncio se...pul...cral.

 

"Desistiu." - respirei de alívio e não sei bem porquê senti-me orgulhosa, um orgulho nervoso igual àquele que se sente quando devolvemos uma carteira que encontramos perdida no banco do jardim, ao seu legítimo dono.

Ainda pensei em apagar o número mas depois lembrei-me que isso poderia apanhar-me desprevenida na eventualidade de uma próxima chamada do além. Quando um morto chama é melhor sabermos quem é para podermos ignorar. Que a vida siga o seu rumo natural e que os dois mundos não se toquem. É assim que está certo.

Arrumei o telemóvel a um canto e continuei a preparar o jantar.

 

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Captar o Ser-se humano

por Regina da Cruz, em 26.10.13

Tarkovsky é um realizador excepcional. Os filmes são verdadeiros. As cenas são melancólicas, misteriosas, difusas, sombrias, por vezes perplexificantes e sem aparente sentido. Como um sonho. Como uma longa reflexão que não nos leva a conclusão alguma mas nos inquieta, nos desassossega. Este realizador aventurou-se pela alma humana adentro e encontrou na câmara o canal para comunicar aquilo que viu. E o que viu foi beleza, inquietação e infinitude. Talvez a alma seja feita destas mesmas propriedades.

 

É preciso vagar para ver Tarkovsky e é preciso estar-se numa demanda de respostas para o entender e para apreciar o seu trabalho. É preciso primeiro que tudo, estarmos dispostos a religarmo-nos ao sublime. Não é um realizador do nosso tempo mas é sem dúvida um mestre para o nosso tempo, um tempo que asfixiou a dimensão espiritual do ser humano, com os resultados que se conhecem.

 

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Daquilo que É mas não tem nome

por Regina da Cruz, em 02.10.13

Lembro-me bem daquele dia em que tive a certeza da existência de uma dimensão espiritual em mim. De sentir com clareza nítida esse meu EU que é mais do que isto que caminha e respira e se alimenta e pensa. Muito mais. Senti a infinitude de mim projectada no horizonte. Não, eu não era apenas essa pessoa biológica nem sequer somente essa pessoa psicológica, porque se fosse apenas e só isso, nesse mesmo dia eu teria sido destruída pela tristeza, dilacerada pela crueldade do real. Poderia ter-me consumido pela dúvida ou pela angústia. Estaria certamente desesperada. Em vez disso, senti paz e consolação. Caminhei pela cidade com a tranquilidade de quem sabe que tudo tem um significado e que devemos aceitar o que nos é oferecido viver, e agradecer. Desfrutei, lembro-me bem, com solenidade esse dia de inverno luminoso de céu azul e frio. Uma sensação quase imperceptível de superioridade e força, que captei pela intuição, como um sussurro doce da existência a dizer-me para olhar para dentro de mim e para além,
para além de mim.

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