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Não quero

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Não quero que me procurem

Não quero falar

Não quero que me telefonem

Não quero convites

Não quero passeios

Não quero convívios

Não quero contacto.

 

Quero estar só. Sózinha.

 

Ou então quero-te a ti, ó ser improvável, ser que não existe, ou que, existindo, tarda em aparecer em todo o seu esplendor, para me salvar de mim. Quero-te a ti que és diferente e me aceitas, na minha imperfeição e pobreza, e me compreendes, me abraças e não me forças a nada, não me julgas, não me censuras, amas-me e o teu coração bate mais rápido quando me vê. Quero-te só a ti, tu, que serás fiel e seguro, apesar de tudo, de todas as dificuldades. Apenas a ti suportarei e apenas para ti correrei de alma leve e braços abertos. Só tu terás acesso a tudo aquilo que tenho conquistado e guardado carinhosamente para partilhar, o meu mundo, o melhor de mim. Por que tardas? Talvez porque me escondo. Um milagre, só um milagre.

 

Todos os restantes esqueçam-me, como têm feito até hoje.

 

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Ainda bem que assim é.

por Regina da Cruz, em 05.08.15

Que não houve exaltação ou entusiasmo. Que não houve excitação para além daquela inicial e primitiva, característica da novidade, mas que facilmente se esgota se não for alimentada com aqueles rituais que são próprios. Que não perseguimos desmesuradamente o convívio entre ambos, nem o forçamos, que não nutrimos ilusões, que não demos azo a que nos conhecessemos com alguma profundidade e eventualmente, deus nos livre de semelhante coisa, nos apaixonássemos.

 

Na verdade, nem sequer demos azo a que isso alguma vez se tornasse numa possibilidade. Sim, por ter imperado a prudência, ou lá o que foi, nem possibilidade chegou a ser. Foi ainda menos que um nado morto, foi um não-nado.

 

Mantivemos uma espécie de política de não destruição mútua pois ambos sabemos das nossas forças nucleares e estamos conscientes da nossa capacidade destrutiva e por isso mantivemos uma distância sabiamente segura como é próprio de gente como nós, muito telúricos, muito conscientes, muito cerebrais. Que crescidinhos que somos, que orgulho das mamãs!

 

Não, não somos inseguros, nem apáticos, nem tão pouco aborrecidos, sem aventurança  nem criatividade. Calculistas talvez, medrosos nunca! Medo de quê, hein? De que nos pudessemos apaixonar e vir a descobrir uma dimensão sublime e bela, outra que não este tugurio existencial em que temos os pés bem assentes? Medo disso, de que deixemos de ter os pés assentes na terra e a cabeça a pairar no éden? Ou medo de nos desiludirmos irremediavelmente, com dor dilacerante, ao constatar mais uma vez que a realidade, ou um qualquer acesso agudo de consciência, tornou impossível continuar a ilusão que construimos um do outro?

 

Ou por deixarmos de conseguir aguentar a mentira que fizemos um do outro? Ou por medo de não conseguirmos anular o que somos, ou sonhámos ser, em prol da convivência social, do nós, engolindo o dia-a-dia de tédio, de frustração, com sacrífico, como preço a pagar pela companhia, pelo projecto ou pela família, em troca de algum sentido na vida ou pela esperança de redenção, de uma satisfação humilde e quiçá, lá bem às portas do fim, ser recompensado com mimos na cara enrugada, amparo e finalmente imortalidade? Medo disso ou de que tu ao me quereres conhecer, ou eu ao querer conhecer-te a ti, possa deitar por terra a muralha que construiste e todo o edíficio que és, esplêndido, articulado, lógico e complexo fique nu e exposto, afinal tão frágil, à minha frente e à minha mercê? Suspeito que, se conseguisse resistir à tentação de me apoderar de ti, por certo me enamoraria dessa tua coragem e vulnerabilidade, da forma mais pura e benevolente.

 

Temos medo disto tudo, é possível. Receamos talvez a distância, o afastamento, a indiferença amarga, a falta de desejo, o nojo, o nojo do beijo, a rejeição do toque, a rejeição do olhar,  aquele olhar que outrora foi de estrelas faíscantes e de promessas límpidas de sensualidade lânguida, mas que agora é só um deserto de fel e quando não, pior ainda, de indiferença. A ser assim, talvez faça sentido ter medo e se justifique a tal prudência. Ou será porque trazemos uma bagagem enorme cheia de expectativas e sonhos que nos recusamos a largar e fazemo-nos ao caminho, à viagem, embriagados de ego e de ilusão?

 

A verdade é que enquanto receamos não vivemos. Há recompensas valiosas para quem vence o medo e se faz ao caminho sem mala nem mapa.

 

Mas nós não, nós contentamo-nos com pouco - ou assim nos convencemos.

 

Ainda bem que assim é, que somos prudentes, para quê arriscar tudo isto, que não é pouco? Como aguentar o declínio, a angústia, as lágrimas, o fim, que nunca o é realmente, pois há sempre um pedaço do outro que ficará em nós, debaixo da nossa pele, sob a forma de uma memória ténue mas indelével, por vezes purificada de perfeição e de saudade, outras de náusea, mas sempre pronta a ser reavivada pelos estímulos mais improváveis. Para quê sulcar mente e alma com as inquietações da paixão, para quê?! Não faz sentido. Vivamos cerebral e racionalmente neste afastamento seguro e com o mínimo de sofrimento.

 

Fizemos bem em nunca o ser, em nunca sequer ter tentado.

 

Claro que vivemos abaixo das nossas possibilidades emocionais e talvez com isto tenhamos de conviver com a angústia de nunca conhecer senão o pouco que nos damos ao luxo e à liberdade de conhecer, a medo, pela segurança de não sofrer. A incerteza dói.

 

Há recompensas para os audazes e destemidos. Mas para nós é mais confortável viver com esta paz, este consolo mediano e morno de nem sequer ter tentado, de nem ter ousado tentar. Tudo ficou exactamente como era antes, como se o nosso encontro tivesse sido só mais um acontecimento fortuito, um fruto estéril do acaso. O antes de ti é perfeitamente simétrico e igual ao depois de ti, excepto na minha agenda telefónica. Fizemos bem em não querer exacerbar aquelas noites, procurando perceber se algo mais arrebatador poderia surgir na sequência de tão singular encontro. Permaneçamos tranquilos, quase indiferentes, pois talvez haja realmente alguma sabedoria, ou pelo menos algum proveito, em proceder assim.

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Sem anúncios que irrompem a delicadeza da música que oiço e me fazem esperar pelos vídeos que anseio apreender. Bolas para a publicidade! Não me saltem diante dos olhos, não me furem os tímpanos. Vou fechar, vou saltar, vou bloquer-vos, vou rogar-vos pragas, cuidado! O quê, não posso avançar? Tenho de vos ouvir até ao fim? Vou SILENCIAR-VOS!

Não vou comprar nada, está dito. Não quero nada! Ou melhor, até quero, mas eu já sei o que quero e não é nada disso que me querem vender.  Ainda para mais, que me querem vender desta forma tão grosseira e tão feia e inoportuna. Por que será que são tão esganiçados estes anúncios?! Por que são tão miseravelmente irritantes?! Sempre tão positivos e tão alegres, irra!

Que desespero e que sede de invadir todos os espaços em que o ser o humano habita.

Não me interrompam e não me tentem vender nada. Eu não quero. Saiam daqui. Vou anotar os vossos nomes numa lista e nunca vos vou comprar, seus sequestradores de atenção, seus chatos! Os anúncios são as testemunhas de jeová da internet, não há pachorra, não me vou converter.

 

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