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viagem à Grécia Antiga, sem sair de casa.

por Regina da Cruz, em 08.12.15

O Minotauro

 

 

 

 

Em Creta

Onde o Minotauro reina

Banhei-me no mar

 

Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro

Na antiquíssima juventude do dia

Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu

Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses

 

De Creta

Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas

Para inteiramente acordada comungar a terra

De Creta

Beijei o chão como Ulisses

Caminhei na luz nua

 

Devastada era eu própria como a cidade em ruína

Que ninguém reconstruiu

Mas no sol dos meus pátios vazios

A fúria reina intacta

E penetra comigo no interior do mar

Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos

E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor

E o mar de Creta por dentro é todo azul

Oferenda incrível de primordial alegria

Onde o sombrio Minotauro navega

 

Pinturas ondas colunas e planícies

Em Creta

Inteiramente acordada atravessei o dia

E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos

palácios sucessivos e roucos

Onde se ergue o respirar da sussurrada treva

E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror

Imanentes ao dia –

Caminhei no palácio dual de combate e confronto

Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais

 

nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu

O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro

Mas cresce como flor daqueles cujo ser

Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne

E esta é a dança do ser

 

Em Creta

Os muros de tijolo da cidade minóica

São feitos com barro amassado com algas

E quando me virei para trás da minha sombra

Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro

 

Em Creta onde o Minotauro reina atravessei e vaga

De olhos abertos inteiramente acordada

Sem drogas e sem filtro

Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas –

Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,

Sem jamais perderem o fio de linho da palavra

 

Sophia de Mello Breyner Andressen

 

 

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Portugal não deu ao mundo um matemático

por Regina da Cruz, em 19.10.13

Da mesma forma que não deu um grande astrónomo, ou um físico. A matemática é a música do universo e para a descobrir e entender é preciso método e disciplina. Infelizmente os números e a observação metódica da natureza, a inquisição e compreensão do funcionamento do universo nunca foi alvo do apetite dos portugueses. É que, quem principia à descoberta das leis sublimes que os números escondem e que os governam, quem parte à descoberta da harmonia invisível do universo encontra mil fascínios e, em compensação, mil trabalhos. Fica-se absorvido pois se há coisa que o cérebro aprecia é desvendar enigmas, desocultar segredos. Com cada descoberta, novas leis e com novas leis, novas dúvidas e novas hipóteses - novas demandas.

A matemática é um trabalho com regras e que nunca acaba, e ambas essas características desanimam e afastam os portugueses. Se há coisa à qual os portugueses são aversos é às regras: não as entendem e sempre tentam mudá-las. Mas a matemática não se verga a apetites, existe para ser descoberta e entendida, para ser apreciada no seu mistério e não para ser ajeitada à vontade preguiçosa de gente menos dotada de capacidade analítica. E assim foi este povo repelido tendo encontrado conforto e aprovação nos braços da poesia. A poesia, essa musa volátil e inconsequente, cheia de beleza sensual e exuberante, por oposição à beleza sóbria da matemática, e que beija longamente os lábios e cobre de carícias os diletantes e ociosos.

 


Talvez não seja defeito mas sim, estou em crer, feitio - e um feitio não se muda. Terá coisas boas e coisas más. As coisas más estão bem à vista, sabemos que a poesia e o diletantismo, o não produzir intelectualmente um saber prático, comerciável, transaccionável, nos condena à pobreza material e ela aí está, muito visível. A incapacidade para a matemática resulta da falta de domínio da lógica e da organização, de resto duas características muito nossas. Não creio que algo tão genético seja mutável - senão por um acaso.

 

As coisas boas, de ser-se assim tão inapto para a perseguição da ordem e do rigor, são a calma e o pacifismo - duas características que em momentos se somam e resultam em passividade. Os portugueses não são dados a rupturas senão quando muito pressionados. E mesmo assim, essas mudanças são muitas vezes aparentes - na verdade este povo prefere a permanência; nada agrada mais aos portugueses do que deixar tudo como está.

Por que a poesia é assim, é um fazer-não-fazendo, é uma contemplação, self-indulgence. E se o sol brilha lá fora e se o mar está ali tão perto e se eu, povo sem pressa nem ambição, cujo único saber que sou obrigado a dominar é o da vinha e da comida, para quê perseguir essas quimeras da inteligência?

 

Os portugueses são uma gente que não está adaptada a este mundo. Arranje-se outro, pois um povo não muda.

 

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