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O tempo ganho

por Regina da Cruz, em 08.12.15

Quem me dera guardar o tempo só para mim e não sair desta casa

Viver a ler e a investigar.

Há assuntos que me interessam, que me absorvem, tudo que é novo me encanta, descobrir, conhecer, ouvir, aprender.

 

Que vou fazer com tudo o que conheço, que aprendo?

Todas as coisas têm de servir para *alguma coisa*?

Ou aprender poderá ser um fim em si mesmo?

Pelo simples prazer de descobrir o mundo dentro da minha própria casa...

Voltar ao dia-a-dia banal, conviver...gastar o tempo. Perdê-lo para ganhar o sustento, o vil metal que já nem de metal é, e que me permite o luxo da solidão. Trabalho para comprar o meu tempo, o meu isolamento, a descoberta, o mundo todo.

 

 

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Não quero

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Não quero que me procurem

Não quero falar

Não quero que me telefonem

Não quero convites

Não quero passeios

Não quero convívios

Não quero contacto.

 

Quero estar só. Sózinha.

 

Ou então quero-te a ti, ó ser improvável, ser que não existe, ou que, existindo, tarda em aparecer em todo o seu esplendor, para me salvar de mim. Quero-te a ti que és diferente e me aceitas, na minha imperfeição e pobreza, e me compreendes, me abraças e não me forças a nada, não me julgas, não me censuras, amas-me e o teu coração bate mais rápido quando me vê. Quero-te só a ti, tu, que serás fiel e seguro, apesar de tudo, de todas as dificuldades. Apenas a ti suportarei e apenas para ti correrei de alma leve e braços abertos. Só tu terás acesso a tudo aquilo que tenho conquistado e guardado carinhosamente para partilhar, o meu mundo, o melhor de mim. Por que tardas? Talvez porque me escondo. Um milagre, só um milagre.

 

Todos os restantes esqueçam-me, como têm feito até hoje.

 

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A infinitude de mim dentro de quatro paredes.

por Regina da Cruz, em 20.09.15

Que força centrípeta é esta que me faz querer ficar dentro de casa e mais ainda, dentro de mim e dentro do tempo e do espaço, na penumbra silente, como uma matrioska que nunca se desfolha nas suas camadas de mistério?

 

Que força grave é esta, que desígnio? O tempo nunca é suficiente para satisfazer plenamente a sede de mim.

Mas que faço eu com este excesso de interioridade, ou como o contrario, se é que o posso ou devo contrariar?

 

O vizinho liga o aspirador e isso irrita-me. Há uma cão que ladra sem motivo aparente e isso perturba-me. Há um bebé que irrompe a chorar e isso causa-me desconforto, quero que o calem logo. A algazarra caótica dos miúdos à beira da piscina, acho-a insuportável. Gritos, guinchos e correrias desenfreadas? Desejo o silêncio e a calma.

 

Há dias senti muito alívio ao saber que Proust também era assim, também sofria deste mal. Mas Proust atenuou este mal colocando-o ao serviço da arte, e por isso obteve perdão, enquanto eu, na minha mediocridade e ociosidade, nada tenho para mostrar. Em mim o mal é inteiro e estéril, sem atenuantes, sem alquimia ou metamorfose ou possibilidade de redenção.

 

Por que nasci tão deslocada da extroversão, tão avessa ao exterior?

 

Sinto simultaneamente preocupação e orgulho por ser assim tão singular. E é esta dualidade que me divide e me impede de perceber num pensamento unificado, claro e de fronteiras definidas, aquilo que eu sou. Não consigo distinguir e apartar a virtude do vício para assim poder abraçar a primeira e descartar a segunda, com vigor. Não consigo distinguir nem sei o que é certo; só sei que sou. Sou aparentemente alegria e tristeza, inspiração e desolação, beleza e fealdade, bem e mal ao mesmo tempo e de forma indivisível.

 

O que é que isto interessa? Por que penso nisto, por que escrevo isto? É o excesso de mim, o excesso de tempo que nunca é suficiente, este ócio transbordante que me inebria e o prazer de o preencher com as habilidades da mente.

 

Está sol, um dia belíssimo de verão, quase outono. Há mar, um mar azul e ondulante e areia fresca, a meia dúzia de quilómetros e eu aqui, a escrever, a tentar dissipar, pelos prazeres do intelecto, uma melancolia que facilmente se dissiparia pelo simples contacto com a natureza ou com a contemplação de uma bela paisagem luminosa de azul infinito...

 

Será que dissipava? Será que atenuava esta densidade que trago comigo, que carrego penosamente todos os dias, todas as horas?

 

Mas a verdade é que não me apetece dissipá-la, e esse é o problema. Apetece-me mantê-la, cultivá-la, preservá-la, alimentá-la, senti-la, observá-la e compreendê-la, na medida do possível, que é sempre impossível dada a forma abstracta e tão entranhada em mim como se apresenta. Alimento-a e faço-a crescer porque gosto dela e só espero um dia vir a constatar, com uma alegria e paz imensas, que afinal sempre se tratou de uma amiga, uma companheira silenciosa, excessivamente curiosa e sempre fiel, pouco dada à interacção mundana, que me subtraiu ao mundo social por motivos insondáveis mas superiores e valorosos para mim e que mais tarde, entenderei e agradecerei. Tenho esperança que assim se venha a revelar.

 

Espero não vir, de modo contrário, a constatar com horror que a cada dia que passei ausente da interacção com o mundo, estava na verdade em estado de sequestro, de refém, e que ela, alimentando-me com o pão que o diabo amassou, me sufocou lentamente com as suas mãos brancas de nunca terem visto o sol, a ponto de me fazer dissolver na infinitude do tempo, aniquilando-me de forma suave mas definitiva, não restando de mim mais nada, nem sequer uma breve memória ou impressão na alma ou na vida dos que ficam depois de mim.

 

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