Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Encadeamentos pessoais para sair do labirinto.
Onde andas tu
com quem partilharei tudo o que aprendo?
Que me estimularás a ser melhor, a saber mais, coisas novas, diferentes...
Que me ajudarás a ver a vida sob uma perspectiva diferente?
Que me darás a mão e me levarás a descobrir o Mundo.
Ou apenas o mundo, com m pequenino, aquele nos é possível conhecer mas ainda assim, a totalidade do que é possível.
Caminharei toda a vida sozinha sem ter com quem dividir esta alegria tranquila que é viver e descobrir, saborear, parar, respirar, olhar, tocar, abraçar, repousar...
A ti... a quem mostrarei tudo, o mais belo e o mais feio de mim.
Tu, que o poderás ser em mim.
Vermo-nos e não nos julgarmos, só sermos no momento que existe para não existirmos sozinhos. Eu ser para ti e tu para mim. Nus e refastelados pela casa e pela vida.
Deveria fazer a minha parte em vez de simplesmente aguardar que o acaso aconteça.
Quem me dera guardar o tempo só para mim e não sair desta casa
Viver a ler e a investigar.
Há assuntos que me interessam, que me absorvem, tudo que é novo me encanta, descobrir, conhecer, ouvir, aprender.
Que vou fazer com tudo o que conheço, que aprendo?
Todas as coisas têm de servir para *alguma coisa*?
Ou aprender poderá ser um fim em si mesmo?
Pelo simples prazer de descobrir o mundo dentro da minha própria casa...
Voltar ao dia-a-dia banal, conviver...gastar o tempo. Perdê-lo para ganhar o sustento, o vil metal que já nem de metal é, e que me permite o luxo da solidão. Trabalho para comprar o meu tempo, o meu isolamento, a descoberta, o mundo todo.
O Minotauro
Em Creta
Onde o Minotauro reina
Banhei-me no mar
Há uma rápida dança que se dança em frente de um toiro
Na antiquíssima juventude do dia
Nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
Só bebi retsina tendo derramado na terra a parte que pertence aos deuses
De Creta
Enfeitei-me de flores e mastiguei o amargo vivo das ervas
Para inteiramente acordada comungar a terra
De Creta
Beijei o chão como Ulisses
Caminhei na luz nua
Devastada era eu própria como a cidade em ruína
Que ninguém reconstruiu
Mas no sol dos meus pátios vazios
A fúria reina intacta
E penetra comigo no interior do mar
Porque pertenço à raça daqueles que mergulham de olhos abertos
E reconhecem o abismo pedra a pedra anémona a anémona flor a flor
E o mar de Creta por dentro é todo azul
Oferenda incrível de primordial alegria
Onde o sombrio Minotauro navega
Pinturas ondas colunas e planícies
Em Creta
Inteiramente acordada atravessei o dia
E caminhei no interior dos palácios veementes e vermelhos
palácios sucessivos e roucos
Onde se ergue o respirar da sussurrada treva
E nos fitam pupilas semi-azuis de penumbra e terror
Imanentes ao dia –
Caminhei no palácio dual de combate e confronto
Onde o Príncipe dos Lírios ergue os seus gestos matinais
nenhuma droga me embriagou me escondeu me protegeu
O Dionysos que dança comigo na vaga não se vende em nenhum mercado negro
Mas cresce como flor daqueles cujo ser
Sem cessar se busca e se perde e se desune e se reúne
E esta é a dança do ser
Em Creta
Os muros de tijolo da cidade minóica
São feitos com barro amassado com algas
E quando me virei para trás da minha sombra
Vi que era azul o sol que tocava o meu ombro
Em Creta onde o Minotauro reina atravessei e vaga
De olhos abertos inteiramente acordada
Sem drogas e sem filtro
Só vinho bebido em frente da solenidade das coisas –
Porque pertenço à raça daqueles que percorrem o labirinto,
Sem jamais perderem o fio de linho da palavra
Sophia de Mello Breyner Andressen
A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.